Em entrevista à Fórum, a psicóloga e professora Jaqueline Kalmus fala sobre sua tese de doutorado defendida na USP, na qual analisa os percalços que permeiam a vida de estudantes pobres na rede privada de ensino superior. Jaqueline Kalmus é professora universitária e autora do estudo “Ilusão, resignação e resistência: marcas da inclusão marginal de estudantes das classes subalternas na rede de ensino superior privada”, desenvolvido no Instituto de Psicologia da USP e que analisa os fatores responsáveis pelas dificuldades enfrentadas por universitários pobres no ensino superior. Para ela, a “mercantilização” da educação no Brasil é uma delas; além do preconceito, da baixa qualidade no ensino básico, entre outros. Confira a seguir.
Fórum – Conte sobre a produção de seu estudo. Como surgiu a ideia do tema?
Jaqueline Kalmus – O estudo é uma pesquisa de doutorado, desenvolvida entre 2006 e 2010. Meu interesse era investigar os sentidos que estudantes pobres da rede superior privada atribuem à sua passagem por essa modalidade de ensino. Queria saber quais os sonhos que são construídos ou impedidos, as formas de consciência, resignação e resistência, as repercussões subjetivas dessa passagem.
O tema surgiu do encontro de minha experiência como professora universitária com o conceito de “fracasso escolar relativo”, tal como definido pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. O autor aponta a falácia da realização da democratização do ensino, que teria sido alcançada pelo prolongamento da escolarização da população. Se antes parte considerável dos pobres era excluída dos bancos escolares precocemente, agora os estudantes permanecem no sistema escolar, percorrem suas séries, graduações e obtém seus diplomas, mas nem por isso deixam a condição de subalternidade, já que muitas vezes acabam por obter no máximo uma formação precária e um diploma desvalorizado que não garante o ingresso e permanência no mercado de trabalho.
É claro que a realidade brasileira difere daquela estudada por Bourdieu; mas aqui também, sobretudo a partir da década de 1990, começamos a ver uma série de medidas que pretendem fazer com que os alunos atinjam graus mais elevados de escolarização, inclusive até o ensino superior, mesmo que isso não signifique uma verdadeira formação. Esse processo pode resultar em grande mal-estar, na medida em que os estudantes descobrem que o tempo que passaram na escola foi um tempo perdido, ou que foram vítimas de uma ilusão, já que o ensino básico não lhes forneceu os pré-requisitos necessários para acompanhar os cursos de uma universidade. É como se a faculdade os convidasse para entrar, mas, ao mesmo tempo, os expulsasse, pois os estudantes deparam com diversas dificuldades: de tempo, de dinheiro, de conteúdos…
Escrito por Washington Dourado 